Victor

ele é uma das únicas pessoas por quem escrevo
é o único para quem penso em enviar meus textos

se escrever me completa,
ele é o único que me conhece por inteira

ele me deixa leve
me faz pensar sobre coisas que geralmente deixo passar batidas
e coisas que eu nem imaginaria, mesmo se tentasse

ele é peculiar – foi o que pensei da primeira vez que o vi
fica interessante quando recita o nome de todos os anões
e conquista no primeiro abraço
tirando a palavra “gostoso” da cozinha

ele é minha licença poética
pois ao lado dele meu ser não tem censura

ele é aquele livro que nem sempre leio
mas carrego por segurança – paz é saber que ele está ali se eu procurar

por isso tenho medo
e se um dia ele não estiver?
bem, Deus e o Universo sabem
por enquanto, ele está aqui – e amo isso

mas se um dia, caso procure,
ele não estiver, não vou chorar
vou sorrir
lembrando do seu abraço
do seu sorriso
da sua mente
e por saber que ele não está ali – aqui –
porque transbordou
de tal forma que a matéria – a física –
não suportou

daí nunca mais carregarei o livro
não mais procurarei
pois, definitivamente, ele estará ali
aqui
em mim

***

escrevo porque um homem de uma perna só distribuiu poesia e eu recusei

rio branco, 13/06/2017


Victor no meu sofá.

A extinção das goiabas

Certo dia caminhava rumo à padaria de mãos dadas com meu irmão. É um detalhe importante visto que o meu acompanhante, felizmente, não caminha como os adultos. Na verdade, acho que a sua principal atividade ali era observar – o caminhar apenas fazia parte.
  O fato é que o ritmo da criança só me deixava a alternativa de observar também: as pessoas, as calçadas ridiculamente irregulares e desconfortáveis, o comércio, a loja de ferramentas que tem de tudo (e um dia quero entrar lá)…
  Chegando na padaria vi goiabas, ao que instintivamente olhei para meu irmão e o comuniquei “Olhe, Gui! Goiabas!”
  A minha própria afirmação relampejou na minha mente: Guilherme nunca comeu goiaba. Quase quatro anos e a sua indiferença ao meu chamamento me deixou atônita.
  Eu vibrei e salivei só de avistar as goiabas. O cheiro me veio quase como uma saudade, porque eu mesma não me lembrava da minha última goiaba.
  Juntei todas essas constatações e antes de colocar o primeiro pé dentro da padaria, tive uma epifania. “As goiabas estão em extinção.”
  Chegando no balcão, pedi um real de pão, mas queria mesmo era perguntar àquela moça quando fora a sua última goiaba. Ela retornou com um saco de papel pardo contendo três pãezinhos, mas nenhuma goiaba.
  No caminho de volta me obriguei ao esforço de lembrar da última vez que peguei numa goiaba. Fui parar na infância, na casa da minha tia, atrepada na tão disputada goiabeira bem na frente do seu quintal, perto da cerca.
  Era sempre assim: na época das goiabas tinham aquelas de casca-verde claro, certamente vermelhas, doces e carnudas por dentro. Meus primos e eu comíamos até a tia falar que íamos ficar tapados (lá naquele lugar) de tanto comer a fruta. Arriscávamos mesmo assim. Tinham também as amarelas das quais nunca gostei. Quase sempre tinham bicho.
  Quando as verdes maduras e as bichadas acabavam, só nos restava comer as verdes mesmo. Pequenas, duras, azedas na casca e brancas no interior. Quando finalmente depenávamos o pé, não tinha jeito, era a vez das folhas. A gente comia jurando que tinha gosto de goiaba, diferença não se via. No fim da tarde, de barriga cheia e pés da cor do chão, era hora do banho. Eu lamentava ter de lavar o perfume de goiabeira e o cheiro de esperança que cada florzinha branca trazia: mais goiabas.
  Em meu esforço de memória, recordei que no condomínio, lá no “quintal” do bloco vizinho ao meu tem uma goiabeira. Guilherme e eu sempre passamos por ela no trajeto para o parque. Se me recordo bem estava dando goiabas, carregada daquelas “verdes mesmo”.

“E se essa for a minha última goiabeira? E se for a única de Gui? E se as goiabas estiverem mesmo a ponto de serem extintas? Como o mundo não notou?!”

  Naquela tarde fomos ao parque. Parei perto daquela árvore pouca coisa mais alta que eu (os galhos lhe davam vantagem), tronco descascando, folhas pequenas de tons de verde variados. Procurei as goiabas verdes mesmo. Não estavam mais lá…
  Observei a goiabeira. Nem era o melhor exemplar da espécie se comparada àquela da tia. Suspirei vencida: “extintas!”. Peguei a mão do meu irmão para seguirmos ao nosso destino. Esperancei que o dele não reservasse tantas outras extinções.

Mais de 30 dias de quarentena

— Trouxe nova palma. A que aí está é enxertada, creio.
— Pelo menos é doce — pontuei. Não trava.
Ajudei minha mãe a tirar as compras das sacolas sem máscara, um erro. Coloquei laranjas, tangerinas e bananas compridas na cuba. Enchi-a d’água e pinguei água sanitária. Já tinha virado hábito, assim como borrifar embalagens com a mesma mistura — quando não, álcool a 70 por cento — e passar uma toalha de papel.
— Acredita que o puto pediu pra continuar falando comigo? Eu nunca o faço, mas concordei. Depois ele me vem com essa de “não fale comigo se não voltará para mim”. O cúmulo!
Não contei que ele falou tudo isso em outro idioma. Seria vergonha alheia demais…  Preferi-a fazendo uma cara cômica enquanto escutava atentamente e esfregava algum mantimento como se o mal habitasse por sua superfície.
Tirei a remessa de frutas e passei às verduras. Esperei e tirei-as também. Deixei tudo ali para que escorresse a água.
Dei uma volta na mesa, chegando à fruteira. Tomei uma banana e fui em direção à janela, descascando-a. Mordi. “Enxertada” pensei. Olhei a casca que sobrou em minha mão, mirei no pé da romã.
— Pelo menos ainda é adubo.